Romper com uma boa menina

As Aventuras de Gabi nas Terras do Estrogênio – Trigésima Sétima Semana

2019.07.21 20:54 ankallima_ellen As Aventuras de Gabi nas Terras do Estrogênio – Trigésima Sétima Semana

Ansiosa, esperava inquieta a iminente chegada. Fazia um ano que não os via. Já eles nunca assim haviam me visto. Era a primeira vez que nos encontraríamos desde que iniciei a minha transição. Expectativas? Muitas. Medos? Todos. Como seria a sua reação? Tratariam me com amor? Carinho? Respeito? Palavras ditas pelo telefone não carregam o mesmo peso e significado daquelas ditas olho no olho. É fácil fingir aceitação sem ter a linguagem corporal a lhe denunciar. Anos de transfobia velada cobravam seu preço. Mas as pessoas mudam, queria acreditar. Sobretudo quando há amor envolvido.

Precisava conquistar o meu espaço, a minha independência, a minha identidade. E por mais que meu consciente forçosamente calcado na lógica descartasse a necessidade de sua aprovação, minha alma ansiava. Queria muito mostrar o quão feliz estava. O quanto essa mudança salvou a minha vida. Era outra pessoa. Renascida das cinzas de um ser em frangalhos que apenas sobrevivia. Queria que percebessem que pela primeira vez em décadas estava viva. Talvez assim, tocasse seus corações e me amassem como sua filha.

O plano era louco, desvairado, já haviam me alertado. Passar uma semana viajando com meus pais. Visitar a família estendida. Longe de qualquer santuário. Sem nenhuma garantia. Longe daquela que foi o meu alicerce nesses últimos meses. Sozinha nessa imersão de sentimentos. Sujeitando-me a imprevisíveis intempéries. Misgendering e deadnaming eram minhas únicas certezas. Contudo, era o que precisava ser feito. Precisava romper essa última casca. Transpor a barreira que me aterrorizava há pelo menos um ano.

A chegada foi tímida. Sorrisos contidos. Abraços distantes. Almoçamos rapidamente num restaurante perto de casa antes de me juntar a eles e a estrada. O silêncio do almoço foi substituído por conversas amenas para distrair da chatice do trajeto. Mares de morros, desce serra, a baixada e finalmente sobe serra. Aos poucos fui relaxando e eles também. Não se parecia com o fim do mundo. Havia esperança. Como num rito de passagem, retornava à fatídica cidade de meu nascimento incorreto para renascer menina. Talvez fosse por isso que há eras teimava em visitá-la. Precisava fazer do jeito certo. Caminhar por aquelas ruas nevoentas entre canais despida daquela mentira. Livre enfim.

Logo na noite de nossa chegada, encontramos com primos da minha mãe. Cerveja e boa comida regadas a risadas e conversas leves. Nenhuma pergunta constrangedora. Parecia que tudo se passava como nada se passasse. Como se sempre houvesse sido assim. Claro, o nome morto foi invocado erroneamente algumas vezes, mas nada que não passasse de uma lapso mnemônico prontamente corrigido. Uma falha na matriz.

No dia seguinte, antes do almoço na casa da tia-avó, vaguei com meus pais por ruas que o tempo não parecia ter tocado. Eram exatamente como lembrava, apenas me pareciam as distância menores. E com o passeio vieram as memórias e conversas mais significativas. Percebiam minha felicidade reconquistada e a retribuíam. Sorrisos. Abraços. Carinho. Meu pai em toda a sua canhestrice emocional denunciou a luta que trava para aceitar o que o destino me reservou. Não se tratava da questão de aceitar quem eu era. Afinal, de acordo com sua doutrina espírita, espíritos não têm gênero e descem à Terra em todas as formas possíveis. Mas sim, de por que precisava ter sofrido tanto para me encontrar e como ele não percebera essa batalha que silenciosamente perdia.

Nesse clima espiritual, adentrei a Catedral de São Pedro de Alcântara. Lugar onde há 35 anos havia sido batizada. Devolvi o nome que não me representava e neguei os votos que me foram impostos. Livrava-me simultaneamente de dois estigmas que muito me martirizaram. Sem mais nenhuma conexão com a fé que só me ensinou o ódio. Lavei-me de seus pecados e sujeiras. Enfim, podia nascer Gabrielle sem o signo de nenhum deus falso. A única benção que importava era a minha mesma. Eu, deusa de mim.

Da montanha para o mar. Descer a serra para reencontrar outra tia-avó. Tenras lembranças das noites que sonhei em sua casa. Livre do olhar julgador, podia vestir as camisetas que me emprestava para dormir como camisolas. Alheia às questões de gênero que me aguardavam em um futuro não tão distante, podia, sem saber, fingir ser quem um dia me tornaria. A época não entendia o porquê dessa fascinação com esses raros pernoites, só que meus pais custavam a me arrancar desse santuário onde a minha feminilidade começou a florescer. Quase trinta anos depois, ela continuava linda, charmosa e requintada. O mesmo sorriso acolhedor de outrora, apesar das desventuras que a vida lhe pregou.

Também encontrei com a minha madrinha. Talvez a única coisa boa que a igreja me proporcionou. Amiga muito próxima da minha mãe. Fizeram faculdade juntas. Sem saber o futuro que me aguardava, não podiam meus pais ter feito escolha melhor. Não consigo estimar a importância que ela teve no processo de aceitação que minha passou recentemente. Só sei que ela foi crucial. Nada como a vivência de quem passou pela similar situação de aceitar a homossexualidade dos filhos e partilhou da vida de outras pessoas trans. Foi uma noite incrível. Certamente uma das melhores dessas curtas férias. Fazia tempo que não me sentia tão acolhida e à vontade na casa de outrem. Podendo ser eu mesma sem me preocupar com absolutamente nada.

Por dois dias passeie pela famosa praia. Na primeira vez, ainda repleta de vergonha me escondi dos olhares sob as roupas: uma camiseta branca e um shortinho roxo. Conversas com a minha mãe sobre a vida, futuro e passado enquanto vagávamos em direção ao forte. Na privacidade da caminhada, pude finalmente verbalizar algumas das mágoas, frustrações e outras problemáticas de um relacionamento oco. Ela me ouviu. Não gostou, mas concordou. Admitir os problemas é o primeiro passo para resolvê-los. Quem sabe assim possamos enfim criar um vínculo verdadeiro de mãe e filha. No segundo dia, tomada de uma coragem quase sobrenatural, vesti um biquíni e exibi minhas curvas aspirantes. Olhares. Muitos olhares. Não sei se lascivos ou somente curiosos. Certeza apenas, de que muitas mulheres me mediram dos pés à cabeça. Se alguém percebeu minha transexualidade, guardou para si, pois não sofri nenhuma discriminação, nem ouvi qualquer comentário transfóbico. Talvez seja essa apenas a experiência que uma mulher passa toda vez que vai à praia.

Enfim, fazia-se a hora de voltar por alguns dias para casa. Pegar os exames. Marcar a consulta com o endocrinologista. Pegar o RG novo. Contribuir com a minha vivência em gênero e ciência na aula de um amigo querido. Rever a amada. Recarregar um pouco as baterias emocionais, porque na semana seguinte iria fazer compras com a minha mãe. Coisa corriqueira de mãe e filha, mas completamente nova para mim. Experiência aparentemente trivial, mas essencial para quem não a teve no momento certo. Antes tarde do que nunca.

Uma excelente semana a tods! Em breve posto a continuação.

Beijocas,

Gabi
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